Marília Garcia


it’s a love story and it’s about an accident
by Marília Garcia, as translated by Hilary Kaplan

at first, a frozen scene
a finger lands on the glass,
the screen trills.
do you remember
what you said then? did you yell? did it hurt?
do you remember what happened?
the bend, the rain, bright bang.

(then she ended,
sent to belfast)

do you remember what you said
as the car skidded?
three hours waiting in the rain,
the bend, the blast, remember?
you between the steel frames
asking what happened.

(but that was an accident
about a love story.)

love, you say, is a special effect
you think you’ve seen it all
but when the lights come on
the blind spots spread:
an ocean trench, a cloud
away and a city called Glass
or Vertex
Volpi or Verdi

love is someone getting into
your hand’s geometry

just then you cross the corridor
this is no longer between us
from where the labored timbre of your voice

(inside the poem
you feel the laboring effect
and all the whys echo
in a conch shell)

that’s love, you say,
not a crow but a red raincoat
hanging on a window, come from another poem
to play on your screen.

it’s you eating the yellow left
after the blast.

love is a look that stains
the retina in an emergency
a grey eye that trembles
when you cross hemispheres.

“it’s hard to look
directly at
things” they are too
bright or too dark.

two-thirds of this country is made out of water
every time you turn around, a
drowning.
just a dive,
said the image. let’s see the desert,
walk around the center of the universe?

but this is a dictionary
and it’s about a love story.


love story, a-z

a finger lands on the glass
a grey eye that trembles
about a love story
after the blast
an ocean trench
and all the whys
and it’s about a love story
as the car skidded
asking what happened
at first
away
bright
but that was an accident
but this is a dictionary
but when the lights come on
do you remember
do you remember what happened
do you remember what you said
directly
drowning
every time you turn around
from where the labored timbre of your voice
hanging on a window
in a conch shell
inside the poem
it’s hard to look
it’s you eating
just a dive
just then you cross the corridor
love, you say, is a special effect
love is a look
love is someone getting into
not a crow but a red raincoat
or vertex
said the image
sent to belfast
that’s love, you say
the bend, the blast, remember
the bend, the rain, bright bang
the blind spots spread
the retina in an emergency
the screen trills
then she ended
things
this is no longer between us
three hours waiting in the rain
to play on your screen
two-thirds of this country is made out of water
volpi or verdi
walk around the center of the universe
what you said then
when you cross hemispheres
you between the steel frames
you feel the laboring effect
you think you’ve seen it all
your hand’s geometry

 

§

 

 

é uma lovestory e é sobre um acidente

 

primeiro, a cena congelada
um dedo pousa no vidro,
a tela vibra.

                    você lembra o que
disse na hora? você gritou? doeu?
você lembra do que aconteceu?
a curva, a chuva, um clarão.

(depois ela acabou,
foi embora para belfast.)

você lembra o que disse na hora
em que o carro deslizou?
três horas na chuva esperando,
a curva, o estrondo, você lembra?
você entre as ferragens
perguntando o que houve.

(mas isso é um acidente
e é sobre uma lovestory.)

o amor, diz, é um efeito especial
pensa que viu tudo
mas quando acende a luz
os pontos
cegos se espalham:

          uma fossa abissal, uma nuvem
de distância e uma cidade chamada Vidro ou
Vértice
                    Volpi ou Verdi

o amor é alguém entrando
na geometria da sua mão

neste momento atravessa o corredor:
– não há mais isso entre nós,
de onde o timbre da sua voz
um efeito-estertor

(dentro do poema
pode sentir o efeito
e nessa hora todos os porquês
ficam guardados
em concha)

o amor é isso, diz,
não um corvo
mas um impermeável vermelho
pendurado na janela vindo de outro poema
para tocar na sua tela.

é você comendo o amarelo que sobrou
depois do estrondo.

o amor é este olhar que mancha
a retina na hora da emergência
um olho cinzento que treme
sempre que muda
de hemisfério.

“é difícil olhar as coisas
diretamente”
elas são muito luminosas
ou muito escuras.

2/3 deste país são feitos de água
e sempre que se vira, um
afogamento.
                    apenas um mergulho,
dizia a imagem. vamos ver o deserto,
andar pelo centro do mundo?

mas isso é um dicionário
e é sobre uma lovestory.

 

lovestory,
de a-z

a curva, a chuva, um clarão
a curva, o estrondo, você lembra
a retina na hora da emergência
a tela vibra
afogamento
apenas um mergulho
cegos se espalham
centro do mundo
de distância e uma cidade chamada vidro
de hemisfério
de onde o timbre da sua voz
dentro do poema
depois do estrondo
depois ela acabou
diretamente” elas são muito
disse na hora? você gritou? doeu
dizia a imagem, vamos para
dois terços desse país são feitos de água
e é sobre uma lovestory
e é sobre uma lovestory
e nessa hora todos os porques
e sempre que se vira
é difícil olhar as coisas
é você comendo o amarelo
em concha
em que o carro deslizou
ficam guardados
foi enviada para belfast
luminosas
mas isso é um acidente
mas isso é um dicionário
mas quando acende a luz
na geometria da sua mão
na janela vindo de outro poema
não há mais isso entre nós
não um corvo mas um impermeável
neste momento atravessa o corredor
o amor é um efeito especial
o amor é alguém entrando
o amor é este olhar que mancha
o amor é isso
os pontos
ou muito escuras
para tocar na sua tela
pensa que viu tudo
perguntando
pode sentir o efeito
primeiro a cena congelada
sempre que muda
três horas na chuva esperando
um dedo pousa no vidro
um efeito-estertor
um olho cinzento que treme
uma fossa abissal
uma nuvem
vermelho pendurado
vértice
você entre as ferragens
você lembra do que aconteceu
você lembra o que
você lembra o que disse na hora
volpi ou verdi

 

bio:

Marília Garcia is a poet, editor, translator and professor, born in Rio de Janeiro in 1979. Her first collection of poems was published in 2001, called "encontro às cegas" (blind date). This was followed by "20 Poemas para o seu Walkman" (20 Poems for your Walkman, 2007) and "engano geográfico" (error of geography, 2012). Her texts have been translated into German, English, French, Spanish and Swedish. She is the coeditor of the literary magazine "Modo de Usar & Co." and a professor of Literature at the Federal University in Rio de Janeiro, where she lives and works..

link:

http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.de/